A Pesca – Modalidades – Evolução Histórica

A Pesca é uma atividade milenar, praticada pelo ser humano desde tempos imemoriais. Sabendo, como se sabe, que o ser humano é o maior predador existente no Planeta Terra, é fácil de perceber que cedo tentou descobrir truques e técnicas que lhe permitissem capturar os peixes, moluscos e crustáceos que deambulavam distraidamente nas águas à sua volta, tal como fez com a caça. Caça e pesca são, pois, duas das atividades humanas que sempre o acompanharam, desde os primórdios, visto permitirem suprir as suas maiores necessidades de alimentação.

Muitas técnicas de pesca são hoje conhecidas e utilizadas um pouco por todos os povos, nos cantos mais recônditos do planeta: Europa, Ásia, África, América e Oceania. Umas mais rudimentares, outras mais evoluídas.

Imagino eu que a primeira das técnicas rudimentares utilizadas tenha sido a técnica da pesca à mão, com mergulho, ou não, associado. Quem andou já, a pé, dentro dos rios, de águas baixas, ou dentro de lagaceiras baixas, no mar, muitas vezes sentiu vontade de o fazer, ao ver passar perto de si, peixes deambulantes, nadando descontraidamente. Ora, é preciso compreendermos que, há milhares de anos, a quantidade de peixes na costa era muito maior do que hoje e, portanto, maior a probabilidade de os apanhar à mão.

Outra técnica rudimentar utilizada era a pesca com arpão improvisado – uma cana afiada na ponta e que se atira ao peixe, aprimorando a pontaria, até acertar no peixe. Esta técnica pode ser melhorada, atando um fio na outra extremidade, para recuperar facilmente a cana. Certas tribos indígenas ainda hoje a utilizam. Entretanto, ela foi evoluindo para arpões mecânicos e elétricos que são atirados a grandes distâncias e utilizados na pesca embarcada do peixe-agulha e do espadarte.

Outra variante da técnica do arpão é a técnica do arco e flecha, utilizada na pesca e na caça.

Uma outra técnica que era muito utilizada pelos povos primitivos, mas que ainda hoje dá jeito, em determinadas circunstâncias, é a técnica da barragem, que consiste em tapar a fuga do peixe, com obstáculos, em certas zonas delimitadas dos rios. Depois é apertar o cerco progressivamente ao peixe ou, mesmo, secar essa zona do rio.

Outra técnica que se vê muito nos programas de televisão sobre os povos indígenas, em certas regiões do Planeta, consiste em utilizar certos produtos químicos, retirados das plantas locais, que adormecem temporariamente os peixes. Depois, é só apanhá-los à mão rapidamente. Os povos indígenas das florestas cedo se habituaram a utilizar as plantas locais no fabrico de mezinhas para os seus achaques e doenças. A partir daí, não lhes foi difícil compreender o efeito que algumas dessas substâncias químicas teriam nos peixes dos rios ou durante as caçadas de animais terrestres. Alguns dos químicos eram tão fortes que passaram a utilizá-los nas suas flechas, com que se protegiam dos povos invasores.

Outra das técnicas utilizadas consistia em lançar petardos na água, ou chapinhar com muita força, para atordoar o peixe e apanhá-los no momento.

Uma outra das técnicas rudimentares engenhosas consistia em colocar um recipiente dentro de água, com um isco dentro, e aberto na extremidade superior. O recipiente era ligado à extremidade de uma cana que era levantada logo que algum peixe entrasse dentro dele. Os covos, utilizados na pesca da lagosta, lavagante, polvos, etc., foram uma evolução dessa técnica e são ainda hoje utilizados. É constituído por uma rede, colocada sobre vários arcos, os quais  a mantêm aberta. Dentro, é colocado o isco, preso, e que o marisco tenta comer. Enquanto estão entretidos a comer, o pescador tira o covo da água e recolhe o marisco.

Porto de Abrigo da Nazaré

Porto de Abrigo da Nazaré

À medida que o conhecimento humano foi evoluindo, o homem começou a aperfeiçoar as técnicas utilizadas nas suas diferentes atividades profissionais e amadoras. A invenção da tecnologia da trefilação permitiu produzir vários tipos de fios – linho, algodão, sisal,  lã, cobre, ferro, alumínio, nylon, ec. -, tendo alguns deles sido utilizados na pesca. Na pesca, os primeiros fios produzidos foram os fios de linho, sisal e  algodão, utilizados na construção dos aparelhos compridos com anzóis e no fabrico de redes de pesca. O fio de nylon só apareceu em 1938. Com os diferentes tipos de fio, foram produzidas vários tipos de rede utilizadas no mar e no rio, na pesca apeada e embarcada.

Algumas das Artes de Pesca com redes são: rede de emalhar simples, tresmalho (rede de emalhar com três malhas diferentes), rede de cerco, rede de arrasto no mar e para a terra – Arte Xávega -, covos (pesca da lagosta e afins).

Todos estes diferentes tipos de Artes de Pesca com redes têm variantes que são adaptadas aos locais de cada região, aos tipos de peixe e condições locais. Fica também alguma margem para a criatividade de cada pescador. Nos países da Ásia Meridional são utilizadas muitas redes fixas, de emalhar e de cerco, nos estuários dos rios, outras amovíveis, de forma a conduzirem o peixe para o local de captura, com xalavares.

Claro que os modernos barcos de pesca, para além de sondas, radares, GPS, têm todo o tipo de equipamento elétrico e mecânico que lhes permitem efetuar todas as operações trabalhosas, como o lançamento e a recolha das redes e dos aparelhos de pesca com anzóis, facilitando-lhes a tarefa. Antigamente, o trabalho era todo manual e com poucos meios logísticos.

A pesca apeada também sofreu uma grande evolução. A primeira modalidade de pesca apeada, utilizando fio, foi a pesca com varelho. O varelho é uma modalidade rudimentar, utilizando um fio com dois ou três anzóis, com uma pedra na ponta, a servir de chumbo. O varelho é lançado, após fazermos rodar a pedra sobre as nossas cabeças até ganhar o balanço suficiente para o lançarmos bem longe na água, do mar ou do rio. Cheguei a praticá-lo muitas vezes, em adolescente.  Era uma modalidade barata e muito interessante. Nessa altura, anos 60 e anterior, apanhava-se bastante peixe.

Depois, em 1948, apareceu o carreto de pesca à esquerda, produzido em massa para toda a Europa pela empresa Mitchel e que permitiu um grande incremento na pesca à cana, em toda a Europa.

Mais tarde, os franceses inventaram a amostra de pesca, fabricada com material plástico sintético, de várias qualidades e formas e que permitia substituir o isco de pesca. Neste tipo de modalidade de pesca, o pescador tem de movimentar a amostra para fazer negaça ao peixe e levá-lo a mordê-la e assim ficar presa no anzol. Esta pesca, iniciada nos rios, rapidamente passou a ser utilizada no mar, originando a pesca ao corrico, tanto na pesca apeada como embarcada.

Ainda na pesca apeada, já desde o século XIX que era utilizado, na Nazaré, o corrimão – aparelho de pesca comprido com dezenas ou centenas de anzóis, o qual é lançado à água com uma pedra na extremidade e que o mar se encarrega de puxar para dentro, levando a pedra até centenas de metros da costa. Inicialmente, utilizavam isca nos anzóis: sardinha, cavala, lula, caranguejo, etc.

Mais tarde, já na década de 1970, Zé da Palacida – Pescador na Praia da Nazaré – construiu o primeiro corrimão com pingalins. O pingalim era uma amostra sintética própria para anzóis maiores, utilizados na pesca do robalo. Aquilo que inicialmente era, para Zé da Palacida, mais uma experiência de pesca, veio a revelar-se um enorme sucesso, de tal forma que nunca mais utilizou isco no corrimão. O corrimão com isco dava muito mais trabalho, pois tinha que transportar enormes quantidades de isco e voltar a iscar o aparelho todo, após cada linhada. Mais tarde, esta modalidade espalhou-se na Nazaré e em outras praias da nossa costa.

No livro ‘Biografia de Zé da Palacida’ – pescador na Praia da Nazaré –, publicado na Plátano Editora, é descrita esta modalidade de pesca, bem como muitas outras, por si praticadas ao longo de mais de 70 anos de atividade, da pesca apeada e embarcada, onde são também referidos alguns segredos de pesca por si guardados ao longo dos anos, nomeadamente: pesca à lagosta e lavagantes, pesca à groseira,  pesca à cana, pesca ao corrimão, pesca com tresmalho, pesca com tarrafa, pesca com guelrichos e boqueirões, pesca à sertela e muitas outros assuntos de pesca interessantes e pedagógicos. Vale a pena ler!

Conclui-se, por isso, que desde as primeiras técnicas rudimentares de pesca, a Tecnologia da Pesca sofreu enorme evolução até aos dias de hoje. E foi de tal forma essa evolução que, muitas espécies já desapareceram e hoje em dia, para capturar um peixe, o pescador tem de suar muito, usar muitas artimanhas, muitos segredos de pesca e todo o capital de experiência acumulada. Como consequência, foi necessário criar a Aquicultura para produzir a quantidade de peixe necessária à alimentação humana.

Por isso, se gosta de peixe, mas anda com preguiça em apanhá-lo, não desanime! Vá ao mercado e compre um belo peixe! Mas antes, olhe bem para os olhos, pele e escamas. Se estiver descorado, com os olhos mortiços, então já teve melhores dias – não o compre. Se vir muitas unidades do mesmo tamanho, o mais certo é ser peixe de Aquicultura, isto é, de aviário. Este peixe, comer, come-se; mas não é a mesma coisa!

Nota: Leia também os seguintes artigos:

1)      Vantagens e desvantagens das Novas Tecnologias (http://josematias.pt/eletr/vantagens-e-desvantagens-das-novas-tecnologias/)

2)      As virtualidades do WordPress (http://josematias.pt/eletr/as-virtualidades-do-wordpress/)

3)      Como fazer a Base de Dados da sua Biblioteca Particular (http://josematias.pt/eletr/a-escrita-e-a-criatividade-texto-7-fazer-a-base-de-dados-da-sua-biblioteca/)

4)      Como imprimir a partir do seu telemóvel android (http://josematias.pt/eletr/cloudprint/)

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23_09_2013   JMatias

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Sobre josematias

Licenciado em Engenharia Electrotécnica, ramo Energia e Potência, pelo
I.S.T., em 1977, cedo comecei a leccionar no Ensino Secundário, desde 1975
até à data.
A falta, então existente, de material didáctico para o apoio das aulas
teóricas e práticas da área de Electrotecnia/Electrónica, fez despertar a
necessidade de produzir textos de apoio para os alunos que, em colaboração
com o colega Ludgero Leote, permitiu que fossem publicados os livros
‘Automatismos Industriais – Comando e regulação’, ‘Sistemas de Protecção
Eléctrica’ e ‘Produção, Transporte e Distribuição de Energia’, em 1981/2/3. A
partir daí, nunca mais parei de escrever, o que para mim é um prazer! O colega
Leote, com outros interesses diversificados, desistiu de escrever para
publicação.
Escrevi ainda o livro Máquinas Eléctricas-Transformadores com o colega
José Rodrigues que, entretanto, se deslocou para o Portugal ‘profundo’ (um
abraço)!
Tive uma curta experiência como Orientador Pedagógico, à
Profissionalização, no Alentejo, muito interessante, mas que não foi suficiente
para deixar o contacto directo com o aluno, e com os livros, os quais saem
bastante enriquecidos com esse contacto permanente. Na verdade, é bem
verdadeiro o velho ditado “ao ensinar, aprende-se duas vezes”. É esta a
principal razão para continuar com o giz e o apagador, e não dentro de um
qualquer gabinete, apesar dos problemas actuais do nosso ensino. Se, cada um
de nós, dentro das suas possibilidades, características e competências, dermos
algo aos outros, sairemos todos mais enriquecidos!
O meu trabalho é fundamentalmente autodidacta, com muita pesquisa (nos
livros, na Internet, no laboratório real e, agora, no virtual). Apesar das
dificuldades do ensino, nunca desisti, e não vou desistir. Acredito que este
país irá saber dar a volta por cima ! Depende de cada um de nós!

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