Algumas Frases Típicas Utilizadas Pelos Nazarenos

( in Livro ‘Biografia de Zé da Palacida’ – Pescador na Praia da Nazaré)

  1. Tá neuva Ti Óscar = Está névoa Ti Óscar – Um dia o cabo de mar ‘Ti Óscar’ passa por um pescador, a quem chamavam de Porquinho de Merda, e diz-lhe ‘Eh!!!! Tou admirado de ainda nã s’tares bêbado!’. O Porquinho de Merda, que já estava bem aviado, vira-se para o cabo de mar e diz-lhe ‘Só se tá neuva Ti Óscar!’ – querendo ele dizer que o Ti Óscar andava a ver mal!!
  2. Tá c’a costa negada  = Está com a costa negada –   A mulher referida está com a menstruação.
  3. Bebeu áuga da fontinha = Bebeu água da fontinha – Visitou a Nazaré e ficou preso(a) aos seus encantos.
  4. Já det’s à costa? = Já deste à costa – Saiu da Nazaré e já regressou, ao fim de pouco tempo.
  5. Andou pró norte e pró sul = Andou para o norte e para o sul – Conversa puxa conversa……
  6. Fiquei atuada c’mós porc’s = Fiquei atuada como os porcos – Quando uma mulher não gostou daquilo que ouviu ou presenciou.
  7. Calma e ma’ rase! = Calma e mar raso – É uma forma de acalmar quem está muito nervoso e excitado.
  8. Tá mar um brid = Está o mar como um vidro – Expressão utilizada quando o mar está muito calmo, parecendo um vidro reflector.
  9. Tá mar um cão = Está o mar como um cão – Utilizada quando o mar está levadio, como se fosse um cão raivoso.
  10. Óóó salha! ….. Óóó salha! – Expressão utilizada pelos pescadores quando puxam ou empurram os barcos, para marcar o ritmo e combinarem as forças em simultâneo.
  11. Quem na’ rema já remou! – Quem não rema, já remou – Expressão que significa, na Nazaré, que aqueles que nunca remaram, são filhos ou netos de pescadores.
  12. Tant’ se me dá que corra p’ó nort’, corra p’ó sul! = Tanto se me dá que corra para o norte ou corra para o sul – Expressão que significa que não está nada preocupado com a situação e o seu evoluir.
  13. Tivemos a lê’ tod’á noit’! – Estivemos a ler a noite inteira – Expressão que significa que apanharam pouco peixe, que até deu para ler (simbolicamente, falando).
  14. Vai escar barc’s à Viêra! – Vai buscar barcos à Vieira – Expressão irónica utilizada quando se prevê que alguém não apanhou nada ou não vai apanhar nada. Como quem diz ironicamente ‘a pesca é tanta, tanta, que os barcos da Nazaré não chegam para trazer o peixe e é preciso ir à Vieira de Leiria buscar mais barcos’!
  15. Vai seca, seca, e nad’ ah oh! = Vai, seca, seca, e nada Ah oh! = A parte do saco da rede onde o peixe é escorrido tem o nome de secador. Então os pescadores costumam dizer na parte final do lance ‘seca, seca’ para escorrer a água toda e ver finalmente o resultado da pescaria. Quando não há peixe, dizem ‘seca, seca ….. e nada ah oh!’.
  16. Ah bartidores p’as costas! – Ah bartidores pelas costas! – Expressão que é dita a alguém que não fez aquilo que lhe foi pedido ou era exigido, faltando ao prometido ou ao devido.
  17. Cu de poita = Expressão dita quando alguém tem o cu grande. Uma poita é uma pedra grande, pesada e larga, utilizada no mar como âncora, para fundear o barco.
  18. Tens o rem’ no ar = Tens o remo no ar – Expressão que quer dizer que essa pessoa é a seguinte a realizar uma dada tarefa. Quando havia redes da Arte Xávega na água, costumavam pôr um remo no ar para marcar o lance que se ia dar a seguir.
  19. Dá cá os rêmes = Dá cá os remos – O mesmo que dizer ‘dá cá o garfo e a faca’.
  20. Havias de levá’ um smiç’ c’má Redinha! = Havias de levar sumiço como a Redinha – No dia 8 de novembro de 1946, a traineira Redinha desapareceu com catorze homens sem deixar rasto. Por isso, é uma espécie de praga que se roga a alguém.
  21. Já se virou um barc’ com set’ arrases! = Já se virou um barco com sete arrais – História verídica em que um barco se virou, com sete arrais, porque todos queriam dar ordens, não se entenderam, e o pior aconteceu.
  22. Largou barc’s e remes! – Largou barco e remos – Quando alguém largou tudo o que estava a fazer e desapareceu sem dar cavaco a ninguém.
  23. Tá o barc perdid’! – Está o barco perdido – Diz-se, em sentido irónico, quando se prevê que alguém não vai ter o controlo da situação em que está envolvido.
  24. Tá o bot’ virad’! – Está o bote virado – Quando alguém ficou mesmo zangado.
  25.  Tás a mandá’ vi’ barc’s p’á terra? – Estás a mandar vir barcos para a terra – Diz-se a alguém que está a acenar. O aceno era uma das formas de comunicação antigas de terra para o mar e do mar para terra.
  26. Xá andá’ o barc’! – Deixa andar o barco – É o mesmo que dizer ‘vamos embora, não ligues, não te preocupes’.
  27. É de pêxe! – É de peixe! – Como quem diz ‘dá sorte’.
  28. É má’s pêxe q’arêa! – É mais peixe que areia! – Expressão que é dita por alguém que não está a gostar nada da conversa, que está chateado ou contrariado.
  29. É tud’ em archot’s! – É tudo em archotes! – Expressão irónica que significa que a pesca vai ser muito fraca. Antigamente, na pesca noturna da Arte Xávega, os pescadores costumavam levar archotes para iluminar o caminho.
  30. Tá a red’ estremada! – Está a rede estremada – Expressão que significa que não se apanhou peixe nenhum.
  31. É cada ping’ que mata um palec’! = É cada pingo que mata um paleco – Diz-se quando a chuva é muito forte. Paleco é o termo utilizado para designar o forasteiro.
  32. Sabes lá! Tá a m’rrê’ o gad’ ó Zé Mafra! =  Sabes lá! Está a morrer o gado ao Zé Mafra!  –  É dito, em sentido irónico, para contrariar alguém que diz que está muito frio. O Zé Mafra ficou sem uma parte do gado numa noite muito fria.
  33. Vem aí mais chuva q’arêa! = Vem aí mais chuva que areia! – O dia promete muita chuva!
  34. À desgraçada! És capaz de dá’ caminh’ ó Impér’ Brasilêr’! = Ah desgraçada! És capaz de dar caminho ao império brasileiro! – São ditas pelas mães às filhas ou a vizinhas (nos ralhos) que gastam muito dinheiro.
  35. À lêt estragad’! A quem sais tu? = Ah leite estragado! A quem sais tu? – Expressão dita pelas mães aos filhos que são pouco desembaraçados.
  36. Ah menhés da praiaaaaaa! = Ah mulheres da praia! – Expressão que é dita pelas nazarenas quando estão muito irritadas e indignadas e que querem contar a alguém o que lhes aconteceu ou solicitar o apoio moral de outras nazarenas. A partir daí, espalhava-se a palavra aos sete cantos da Nazaré.
  37. Ah ahhh! Na m’atent’s! Vai cansar a mort’! – Ah, ahhhh! Não me atentes! Vai cansar a morte! –  Expressão dita quando se sentem incomodadas.
  38. Aqui non há xó-xó! = Aqui, não há xó-xó – Expressão que é dita pelas nazarenas para significar que se casaram com quem namoraram. O termo xó-xó refere-se ao ruído produzido durante o ato sexual.
  39. Q’rias mama! Tá seca! = Querias mama! Está seca! – É dito a quem gosta de andar sempre a pedir favores.
  40. Seca-m’os fígad’s ah menhés! – Seca-me os fígados ah mulheres! – Expressão dita aos filhos que são desobedientes.
  41. Havia de te dá’ tant’s cângar’s com’ grãos d’arêa tem a borda dáuga! – Havia de te dar tantos cângaros como grãos de areia tem a borda de água! – A palavra cângaro deve ser uma deturpação da palavra cancro.
  42. Ah chê d’esterc’! = Ah cheio de esterco! – Insulto.
  43. À camada de bexigas! = Ah camada de bexigas! – Insulto.
  44. À perigosa inliadêra! = Ah perigosa enleadeira! – Insulto.
  45. Já me dás f’lhoses! = Já me dás filhoses! – Sinal de impaciência em relação a alguém.
  46. Chêra mal qu’imbaça! = Cheira mal que embaça! – Quando o cheiro é muito desagradável.
  47. Dá murr’s nos olh’s! = Dá murro nos olhos! – Expressão dita a quem não sabe o que está dizer ou a fazer.
  48. És de seda! – Expressão dita a quem tem um comportamento reprovável.
  49. Olha! Dá cá o ganh’! = Olha! Dá cá o ganho! – Forma de mostrar desinteresse por uma informação ou notícia recebida.
  50. Olha que mal trajose ali vai! – Expressão dita a alguém que se veste mal.
  51. Seca fat’s d’oliad! = Seca fatos de oleado – Expressão dita a alguém que é maçador.
  52. Tem même bêces de libertina! = Tem mesmo beiços de libertina – Expressão dita em relação a alguém que fala demais.
  53. Mês dos palec’s = Mês dos Palecos. É o mês de setembro. Mês em que os agricultores da região vinham à praia.
  54. Alborques – Intrigas.
  55. Espiancêr – Aquele que cobiça logo aquilo que os outros estão a comer.
  56. Inchent’s – Ralhos.
  57. Licotices – Artimanhas.
  58. Pariga – Rapariga.
  59. Mig – Amigo.
  60. Miga – Amiga.
  61. Picnin – Pequenino.
  62. Repá – Rapaz.
  63. Slareta – Vagina.
  64. Trimpêlh – Desembaraço.
  65. Zuta – Fecho de correr.

Leia mais no Livro ‘Biografia de Zé da Palacida’ – Pescador na Praia da Nazaré.

Sobre josematias

Licenciado em Engenharia Electrotécnica, ramo Energia e Potência, pelo I.S.T., em 1977, cedo comecei a leccionar no Ensino Secundário, desde 1975 até à data. A falta, então existente, de material didáctico para o apoio das aulas teóricas e práticas da área de Electrotecnia/Electrónica, fez despertar a necessidade de produzir textos de apoio para os alunos que, em colaboração com o colega Ludgero Leote, permitiu que fossem publicados os livros ‘Automatismos Industriais – Comando e regulação’, ‘Sistemas de Protecção Eléctrica’ e ‘Produção, Transporte e Distribuição de Energia’, em 1981/2/3. A partir daí, nunca mais parei de escrever, o que para mim é um prazer! O colega Leote, com outros interesses diversificados, desistiu de escrever para publicação. Escrevi ainda o livro Máquinas Eléctricas-Transformadores com o colega José Rodrigues que, entretanto, se deslocou para o Portugal ‘profundo’ (um abraço)! Tive uma curta experiência como Orientador Pedagógico, à Profissionalização, no Alentejo, muito interessante, mas que não foi suficiente para deixar o contacto directo com o aluno, e com os livros, os quais saem bastante enriquecidos com esse contacto permanente. Na verdade, é bem verdadeiro o velho ditado “ao ensinar, aprende-se duas vezes”. É esta a principal razão para continuar com o giz e o apagador, e não dentro de um qualquer gabinete, apesar dos problemas actuais do nosso ensino. Se, cada um de nós, dentro das suas possibilidades, características e competências, dermos algo aos outros, sairemos todos mais enriquecidos! O meu trabalho é fundamentalmente autodidacta, com muita pesquisa (nos livros, na Internet, no laboratório real e, agora, no virtual). Apesar das dificuldades do ensino, nunca desisti, e não vou desistir. Acredito que este país irá saber dar a volta por cima ! Depende de cada um de nós!
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