O alternador e a bateria, do carro

No outro dia, comecei a sentir que, ao ligar a ignição do carro (Auris 1.4 diesel, 2015), o som do arranque do motor estava diferente. Fiquei atento e rapidamente percebi que algo estava mal, com a bateria ou com o circuito de carga da bateria. Comecei então a medir diariamente, com multímetro, a tensão aos terminais da bateria, em repouso e também com o motor ao ralenti.

Verifiquei que a tensão da bateria, em repouso, estava geralmente < 12,5V e que a tensão com o motor ao ralenti variava entre 13V e 14,1V.

Fiz uma pesquisa no Google, em fóruns, e a generalidade dos comentários encontrados dizia que uma tensão <14V aos terminais da bateria, com o motor ao ralenti, queria dizer que o circuito de carga estava com problemas (no alternador, no rectificador ou no regulador). 

Fui dando vários passeios, com cerca de 30 km, para ver se o circuito de carga carregava, ou não, a bateria. Fui verificando que a bateria ia sempre carregando alguma coisa, mas cada vez menos. Fiquei com a seguinte dúvida: será mesmo a bateria (« 4 anos) que entregou a alma ao criador ou será que o circuito de carga está com algum problema, a agravar-se dia após dia. Com esta dúvida, levei o carro à oficina, onde me disseram que o problema era da bateria, já não carregava, pelo que era necessário substituí-la – o que fizeram.

 Medi a tensão da bateria nova que me deu 12,98V, aprox. 13V. Como tinha alguma desconfiança em relação ao sistema de carga da bateria, continuei a medir as tensões. No dia a seguir, deu-me 12,8V. No dia posterior, deu-me 12,65V, em repouso, e 13,1V com o motor ao ralenti. Comecei a ficar preocupado, porque vi a bateria sempre a descarregar, com a tensão ao ralenti sempre nos 13,1V, e fui novamente à oficina para me fazerem o diagnóstico da carga da bateria, antes que ficasse novamente sem bateria, para o arranque do carro. Feito o teste diagnóstico, concluíram que o circuito de carga estava bom e a bateria também, até porque era nova.

Então qual o erro em que eu estava a laborar, induzido pelos comentários lidos nos fóruns?

Perante as dúvidas que eu apresentei ao electricista, ele esclareceu-me os seguintes pontos do processo de carga, que eu desconhecia, particularmente nos novos automóveis:

  1. O alternador não está sempre a carregar a bateria. Só carrega quando a tensão da bateria desce abaixo de um certo valor pré-definido (não consegui descobrir qual é esse valor – 12,6V?, 12,5V?). Para isso, tem um sensor que vai indicar ao computador de bordo o valor da tensão da bateria, em cada momento. Quando é atingido esse valor de referência mínimo, o alternador vai então carregar a bateria. E anda nisto, carregando entre o máximo da bateria e o valor mínimo pré-definido. Por isso, é normal que, ao medir a tensão da bateria, em repouso, possa dar-nos 13V, 12,9V, 12,8V, etc., até ao mínimo pré-definido. Quando não está a carregar, o alternador é desligado, para poupar energia.
  2. A tensão medida aos terminais da bateria, com o motor ao ralenti (fornecida pelo circuito de carga) tanto pode estar acima de 14V, como abaixo de 14V, podendo aproximar-se dos 13V, consoante o alternador está em processo de carga ou não – contrariando aquilo que está muito disseminado nos fóruns. A tensão fornecida pelo circuito de carga é ajustada pelo computador de bordo, consoante a necessidade de carga. O alternador não pode estar sempre a fornecer a tensão máxima, porque iria danificar a bateria ao longo do tempo. Ao que me foi explicado, nos carros antigos, o sistema de carga era mais rígido quanto às tensões fornecidas – daí algumas dúvidas e confusões nos fóruns.

Tudo isto pude eu confirmar posteriormente ao teste de diagnóstico, depois da última tensão medida de 12,65V, em repouso, obtendo depois valores superiores, como: 13V, 12,9V, 12,8V, etc. , o que confirmava que o alternador estava a cumprir bem a sua função. O meu erro, devido à ansiedade, foi não ter esperado o tempo suficiente para que o alternador carregasse finalmente a bateria – isto é, medi sempre a tensão da bateria durante a fase de descarga. Curiosamente, nunca obtive nestes testes nenhum valor inferior a 12,6V, nesta nova bateria. Será esse o valor de referência mínimo para a recarga da bateria? Possivelmente!

Com este sistema de funcionamento do circuito de carga, pretende-se, simultaneamente, proteger a bateria o mais possível e aumentar a eficiência energética do automóvel.

Vai chegar um ponto, no entanto, em que o alternador já não vai conseguir carregar totalmente a bateria e, progressivamente, carregará cada vez menos, até à sua inutilização. Com 12,06V, ainda consegui, a custo, pôr o motor a trabalhar com a bateria velha! Mas o alternador já pouca carga lhe conseguia fornecer.

Estes são os dois pontos principais que quis deixar aqui, para esclarecer algumas dúvidas que todos nós temos e que eu descobri existirem também nos fóruns sobre este tema. Espero ter sido útil com este texto. Acredito, contudo,  que haja outros pormenores  importantes aqui não descritos, tendo até em conta que a electrónica dos carros está em constante evolução e também porque os carros não são todos iguais.

11-03-2019

José V C Matias

Sobre josematias

Licenciado em Engenharia Electrotécnica, ramo Energia e Potência, pelo I.S.T., em 1977, cedo comecei a leccionar no Ensino Secundário, desde 1975 até à data. A falta, então existente, de material didáctico para o apoio das aulas teóricas e práticas da área de Electrotecnia/Electrónica, fez despertar a necessidade de produzir textos de apoio para os alunos que, em colaboração com o colega Ludgero Leote, permitiu que fossem publicados os livros ‘Automatismos Industriais – Comando e regulação’, ‘Sistemas de Protecção Eléctrica’ e ‘Produção, Transporte e Distribuição de Energia’, em 1981/2/3. A partir daí, nunca mais parei de escrever, o que para mim é um prazer! O colega Leote, com outros interesses diversificados, desistiu de escrever para publicação. Escrevi ainda o livro Máquinas Eléctricas-Transformadores com o colega José Rodrigues que, entretanto, se deslocou para o Portugal ‘profundo’ (um abraço)! Tive uma curta experiência como Orientador Pedagógico, à Profissionalização, no Alentejo, muito interessante, mas que não foi suficiente para deixar o contacto directo com o aluno, e com os livros, os quais saem bastante enriquecidos com esse contacto permanente. Na verdade, é bem verdadeiro o velho ditado “ao ensinar, aprende-se duas vezes”. É esta a principal razão para continuar com o giz e o apagador, e não dentro de um qualquer gabinete, apesar dos problemas actuais do nosso ensino. Se, cada um de nós, dentro das suas possibilidades, características e competências, dermos algo aos outros, sairemos todos mais enriquecidos! O meu trabalho é fundamentalmente autodidacta, com muita pesquisa (nos livros, na Internet, no laboratório real e, agora, no virtual). Apesar das dificuldades do ensino, nunca desisti, e não vou desistir. Acredito que este país irá saber dar a volta por cima ! Depende de cada um de nós!
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