A VARIAÇÃO DAS TAXAS DE JURO E SEUS PRINCIPAIS EFEITOS NA ECONOMIA

Para quem não é economista, como eu não sou, a influência das taxas de juro na economia em geral (incluindo a Bolsa de Valores) constitui quase sempre um mistério. Como tinha várias dúvidas sobre o assunto, resolvi investigá-lo. E como não sou egoísta, quis partilhar convosco aquilo que aprendi sobre o tema, através deste texto, que servirá também para mim, se amanhã voltar a ter alguma dúvida.

Vejamos então.

A taxa de juro é um mecanismo de que os Bancos Centrais de cada país se servem para controlar a economia. Como é que eles conseguem então controlar a economia, aumentando ou diminuindo as taxas de juro? É isso que vou expor, sucintamente, e de um modo claro, de forma que os leigos, como eu, entendam. Vamos começar pela redução das taxas de juro.

 

  1. Redução das taxas de juro

Se o Banco Central reduzir as taxas de juro, quer o particular, quer o empresário, passam a ter crédito bancário com menos encargos. Dessa forma, os consumidores passam a comprar mais e os empresários podem investir mais – utilizando créditos bancários, pois os encargos são menores.

Esta é a primeira consequência da redução das taxas de juro. No entanto, há outras consequências: umas positivas, outras negativas. Vejamos quais.

As consequências positivas consistem no facto de o consumidor em geral ter acesso a mais produtos no mercado (com mais facilidade no crédito bancário), comprando mais e, em consequência, as empresas vendem mais – aumentando o seu capital, o que também é bom para os seus trabalhadores. A economia do país cresce e o Produto Interno Bruto (PIB) do país tem tendência, portanto, a subir. Aumentam os postos de trabalho, diminuindo o desemprego.

As consequências negativas consistem no facto de a taxa da inflação tender a aumentar, pois segundo a lei da oferta e da procura, quando a procura aumenta em demasia, se a oferta não acompanhar a procura, quem vende (produtor e revendedor) vai aumentar os preços; a lógica é a seguinte ‘se precisas, pagas o preço que eu imponho’. Aumentando os preços dos produtos, aumenta a inflação – o custo de vida aumenta.

A inflação é a taxa de aumento do preço de um cabaz de produtos selecionados. A inflação anual, a mais utilizada, corresponde ao aumento percentual deste cabaz de produtos ao fim de um ano.

Com o aumento do custo de vida, provocado pela subida da inflação, os trabalhadores exigem aumentos salariais, aumentando os encargos das empresas que, sua vez, aumentam os preços dos produtos produzidos (para compensar o aumento das despesas), com novo aumento da inflação, e assim sucessivamente – como uma bola de neve.

Outra consequência da redução das taxas de juro está ligada ao funcionamento da Bolsa de Valores, isto é, ao mercado de ações, obrigações, fundos de investimento, etc.. Vejamos então.

À medida que a taxa de juros diminui, quem tem dinheiro investido em depósitos a prazo, por exemplo, começa a receber menos juros desses depósitos e procura alternativas mais rentáveis na Bolsa de Valores, comprando ações, obrigações, fundos de investimento, etc., que têm geralmente maior retorno (lucro) do seu investimento. Em consequência, a Bolsa de Valores cresce, bem como as empresas nela cotadas.

A compra de ações, obrigações, fundos, etc., é sempre um compromisso entre o risco que se quer assumir e a expectativa de ganhos que se tem com estes produtos financeiros. Existem destes produtos: com mais risco, com menos risco ou com risco intermédio. Geralmente estão classificados em: defensivos (risco 1 ou 2), equilibrados (risco 3 ou 4) e agressivos (risco 5 ou 6). A expectativa de lucros varia diretamente proporcional com o risco assumido – quanto mais risco, tanto maior a expectativa de lucro e tanto maior a possibilidade de perda

Portanto, quem investe nestes produtos financeiros, define primeiro o seu perfil de risco.

Em resumo, para a redução das taxas de juros, temos:

  • O consumidor compra mais; mas também se endivida mais
  • As empresas vendem mais
  • As empresas aumentam o seu capital
  • O PIB aumenta
  • A Bolsa cresce de valor
  • O volume dos depósitos a prazo desce
  • A inflação aumenta

A inflação varia inversamente com as taxas de juro – se uma sobe, a outra desce, e vice-versa.

 

  1. Aumento das taxas de juro

Se o Banco Central aumentar a taxa de juro, tanto os particulares, como os empresários, passam a ter encargos bancários mais elevados, pelo que começam a reduzir os empréstimos bancários. Em consequência, o consumidor compra menos, o vendedor vende menos, o produtor e industrial produzem, vendem e investem menos. É esta a primeira consequência da subida das taxas de juro.

Vejamos agora as consequências positivas e negativas do aumento das taxas de juro.

Como consequências negativas: em virtude de o consumidor comprar menos, os produtos têm tendência a baixar de valor – é a lei da oferta e da procura. O vendedor, se quiser vender, tem de baixar o preço dos seus produtos. Desta forma, as empresas vendem menos. Isto é, o Produto Interno Bruto tem tendência a descer. As empresas investem menos (crédito mais caro), criam menos postos de trabalho, ou verificam-se despedimentos – o desemprego aumenta.

Como consequências positivas, temos a diminuição da taxa de inflação, em virtude de os preços descerem, visto o consumidor comprar menos – pois tem menor poder de compra.

No que respeita à Bolsa de Valores, passa-se o contrário do ponto anterior. Com as taxas de juro a subirem, os depósitos a prazo começam a tornar-se mais apetecíveis, pois não têm os riscos das ações, fundos de investimento e obrigações. Há muita gente que sai da Bolsa de Valores, comprando Depósitos a Prazo. A Bolsa de Valores tem tendência a cair de valor.

Em resumo, para o aumento das taxas de juros, temos:

  • O consumidor compra menos
  • As empresas vendem e investem menos
  • Os preços caem e a inflação diminui
  • Diminuem os movimentos bolsistas, descendo os índices
  • O volume dos depósitos a prazo cresce

 

A questão que falta agora perceber é a seguinte: quando é (em que circunstâncias) que os Bancos Centrais de cada país decidem reduzir ou aumentar as taxas de juro de referência.

Vejamos.

O Banco Central decide baixar as taxas de juro  de referência quando é necessário revitalizar a economia, isto é, dar-lhe um impulso para facilitar o acesso ao crédito bancário, levando o consumidor a comprar mais e o empresário a vender mais. Desta forma, as empresas crescem, o PIB aumenta, são criados mais postos de trabalho, diminuindo o desemprego. É o que está a acontecer em Portugal e na Europa, atualmente (2017). A principal consequência negativa é o aumento da taxa da inflação.

O Banco Central decide aumentar as taxas de juro de referência quando: a inflação está muito alta; as famílias estão muito endividadas; os níveis bolsistas estão demasiado altos, com níveis inflacionados e perigosos, originando bolhas especulativas, com risco de se poder dar um crash nas Bolsas de Valores.

Isto é, os Bancos Centrais tentam estabelecer uma situação de equilíbrio (dinâmico) nas economias dos respetivos países, em relação às diferentes variáveis em jogo (PIB, inflação, desemprego, índice da Bolsa de Valores, etc.). Para atingir esse objetivo, a variação da taxa de juro é o melhor instrumento que os Bancos Centrais possuem, pois ela mexe com todas as variáveis da economia.

No caso dos países da CEE, é o Banco Central Europeu BCE que impõe as principais regras de funcionamento da economia da Zona Euro. Impôs, por exemplo, 2% como limite máximo para a taxa de inflação na Zona Euro, a partir do qual ele irá aumentar as taxas de juro, de forma a reduzir o acesso aos créditos bancários e, assim, iniciar o combate à inflação, para evitar grandes subidas nos preços dos bens e produtos, e suas consequências. Neste momento (Outubro de 2017), a taxa média da inflação na Zona Euro está em 1,1%, ainda bastante abaixo do limite de 2% fixado pelo BCE. No entanto, na Alemanha, a taxa de inflação já atingiu 1,9%, muito próxima do valor máximo de 2%. Com este valor de inflação (1,9%) e com as taxas de juro baixas (a Taxa de Referência do BCE é de 0%),  os aforradores alemães que não invistam na Bolsa de Valores estão a perder uma quantia considerável de dinheiro. Por essa razão, a Alemanha está a pressionar o BCE para aumentar as taxas de juro, de forma a minimizar as perdas dos seus aforradores mais conservadores e baixar a inflação. O BCE tem, no entanto, sido inflexível no seu propósito que é o de proteger a economia global da Zona Euro, e não apenas a de um Estado membro, dizendo-lhes para terem paciência. Se o Presidente do BCE fosse alemão, provavelmente as taxas de juro já tinham subido. Digo eu.

Em conclusão, diremos que, como a economia global é muito dinâmica, com variações contínuas em todas as suas variáveis, os Bancos Centrais vão controlando a sua evolução, aumentando ou reduzindo as taxas de juro, de forma a mantê-la num certo equilíbrio dinâmico saudável.

Espero que o texto tenha sido útil.

30 de Outubro de 2017

JVCMatias

Sobre josematias

Licenciado em Engenharia Electrotécnica, ramo Energia e Potência, pelo
I.S.T., em 1977, cedo comecei a leccionar no Ensino Secundário, desde 1975
até à data.
A falta, então existente, de material didáctico para o apoio das aulas
teóricas e práticas da área de Electrotecnia/Electrónica, fez despertar a
necessidade de produzir textos de apoio para os alunos que, em colaboração
com o colega Ludgero Leote, permitiu que fossem publicados os livros
‘Automatismos Industriais – Comando e regulação’, ‘Sistemas de Protecção
Eléctrica’ e ‘Produção, Transporte e Distribuição de Energia’, em 1981/2/3. A
partir daí, nunca mais parei de escrever, o que para mim é um prazer! O colega
Leote, com outros interesses diversificados, desistiu de escrever para
publicação.
Escrevi ainda o livro Máquinas Eléctricas-Transformadores com o colega
José Rodrigues que, entretanto, se deslocou para o Portugal ‘profundo’ (um
abraço)!
Tive uma curta experiência como Orientador Pedagógico, à
Profissionalização, no Alentejo, muito interessante, mas que não foi suficiente
para deixar o contacto directo com o aluno, e com os livros, os quais saem
bastante enriquecidos com esse contacto permanente. Na verdade, é bem
verdadeiro o velho ditado “ao ensinar, aprende-se duas vezes”. É esta a
principal razão para continuar com o giz e o apagador, e não dentro de um
qualquer gabinete, apesar dos problemas actuais do nosso ensino. Se, cada um
de nós, dentro das suas possibilidades, características e competências, dermos
algo aos outros, sairemos todos mais enriquecidos!
O meu trabalho é fundamentalmente autodidacta, com muita pesquisa (nos
livros, na Internet, no laboratório real e, agora, no virtual). Apesar das
dificuldades do ensino, nunca desisti, e não vou desistir. Acredito que este
país irá saber dar a volta por cima ! Depende de cada um de nós!

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